A CRISE DO BRASIL É DE VALORES

Zoroastro de Albatroz

Filósofo. Professor. Escritor

No Brasil não falta água, nem terras cultiváveis, nem mão de obra, nem peixes. Acreditem, não falta nem dinheiro. Aliás, tem dinheiro saindo pelo ladrão (ou pelos ladrões?), sobrando, se esborrotando para os bancos da Suíça e dos paraísos fiscais. Falta competência para gerir a coisa pública, falta honestidade dos guardiões do dinheiro do povo. Falta é vergonha na cara.

A covardia de gerentes públicos e dos bilionários contratos é de causar indignação. Covardia porque eles agem sem trabalho algum, utilizando-se da confiança que o cargo lhes confere. Desde eu menino que a corrupção no sistema previdenciário e no sistema fazendário enche os noticiários.

Não faltam leis repressoras também. Aliás, temos até demais. Falta efetividade das leis. Os Poderes da República, que deviam ser harmônicos e independentes, são truculentos no exercício dos seus poderes e coniventes nas partilhas.

Certamente, o problema do Brasil não consiste em instituir mais tributos. Já os temos demais. Tanto se tributa, se taxa, se multa, se exige, que o cidadão não suporta mais. Em consequência de tanta arrecadação, gestores se fartam de apadrinhar, de acomodar politicamente, de manter um séquito de apoiadores, para sustentar o poder a ferro e fogo. O eleitor, que vê as estratégias do Poder tão-somente pelo poder, cobra caro o voto. E vai crescendo a bola de neve. Eleição por virtude fica cada vez mais difícil.

E chega aí um novo Ministro da Fazenda para arrumar a casa. E de modo muito fácil, cortando gasto e aumentando os tributos. Tributa até inflação. Nunca se viu isso. Veja-se que a tabela do imposto de renda não corrige nem a inflação. Logo, está-se pagando tributo sobre inflação. Esse Ministro, que é mais um chicago-boi, como apelida João Amazonas a esses moços que se formam nas universidades dos Estados Unidos e vêm experimentar suas teorias aqui na macacada. Ele vem reduzindo o crédito educativo do estudante pobre, o seguro-desemprego, os benefícios previdenciários. Exatamente o último que deveria ir para o sacrifício. Tamanha é a covardia que, primeiro reduzem o seguro-desemprego, em seguida promovem o desemprego.

Ora, se já se arrecada demais, como se disse, que o dinheiro está saindo pelo ladrão, a solução está na gerência dos recursos públicos, diminuindo o número de ministérios, de assessores de tudo o que não é necessário, de diretorias das estatais, de filiais dos ministérios. Precisa-se de uma gestão por competência, profissional. Mais política e menos politicagem, mais governo do que jogo para se manter no poder.

Um príncipe chinês foi se aconselhar de Confúcio sobre o que fazer para acabar com a violência desenfreada em sua província, principalmente roubos, furtos e latrocínios. Confúcio aconselhou-o a organizar seu governo com pessoas honestas. Disse ele que basta o governo ser justo, honesto e trabalhador para fazer progredir a província e cessar toda a violência.

Isto está ocorrendo no Brasil. O crime não pertence mais só aos profissionais do crime. Todo molequinho de rua está furtando, roubando e matando. É uma anarquia generalizada. E com que moral os governos vão querer pôr ordem, se o epicentro da desordem está na Praça dos Três Poderes?

Quando os governos das três esferas assumirem seus papeis republicanos, de bem servir e bem gerir a coisa pública e o erário, essa corrupção que ora se amontanha tenderá a ir murchando. Quando a virtude for substituindo a safadeza, quando os valores morais forem substituindo os valores monetários, o eleitor deixará de cobrar pelo voto. Então se estabelecerão disputas em torno de ideias, virtudes e competências.

E isso não é quimera, não é utopia. O brasileiro é honesto de coração. No entanto, não consegue sê-lo, porque é jogado numa girândola de desvalores de todas as origens, principalmente de quem devia dar o exemplo – o poder público; é trabalhador, mas se sente explorado por todos os que vivem nababescamente sem trabalhar; é religioso, mas sofre demais. Portanto, temos a principal semente, que são os bons sentimentos dos corações brasileiros.

Portanto, as nascentes da violência, da letargia social, da apatia, da preguiça, do desalento, da deslealdade estão no governo dos três níveis da federação e nas três esferas do Poder.

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Brasileiro, nascido em Uruoca-Ceará, estudou em Coreaú-Ceará. Graduou-se em Direito pela UFC. Fez Mestrado em Direito e Desenvolvimento na UFC e Doutorado em Direito Constitucional pela UFM|G. Foi Juiz do Trabalho Substituto do TRT Ceará de 1982 a 1989. Juiz Titular da 1ª Junta de Conciliação e Julgamento de Teresina de 1989 a 1992. Juiz convocado para o TRT do Maranhão de março a dezembro de 1992. Desembargador do TRT Piauí desde 1992. Ex-Prof. Assistente da UFC de 1987 a 1990. Prof. Associado da UFPI desde 1990. Idealizador, autor dos projetos de criação e instalador do TRT do Piauí e de sete varas do trabalho no Piauí. Escreveu dez livros mais cinco em coautoria e capítulos de livros vários. Uma centena de artigos. Organizador de quatro congressos de filosofia do direito: I, II, III e IV CONFID. Presidiu a dois concursos de juiz do trabalho e integrou várias comissões de outros concursos de juiz. Presidiu e integrou dezenas bancas examinadoras de concurso de professor na UFC, na UFPI, na UESPI, na UEMA e no IFPI. Dezenas de bancas de doutorado e de mestrado em várias instituições públicas, privadas e no exterior.

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